Sobre o que a gente diz

Às vezes é uma frase que a gente diz. Uma palavra só, às vezes. É um jeito que a gente olha, um suspiro que a gente dá, um passo a frente, um jeito de encostar. Tem as palavras que a gente não diz também, mas que mostramos. Uma coisa que a gente faz pelo outro e que vale umas 300 ou 400 palavras, talvez mais. E hoje tem também os emojis. Eles falam, né? Repetem coisas já ditas, quebram um silêncio qualquer, respondem sem responder. O silêncio também diz bastante coisa. O problema é que a gente quase nunca entende o que ele fala. Aí a gente sempre se pega pensando “o que esse silêncio tá me dizendo?”. E ele continua lá, sem responder, mas falando tanto. Tem vez que ele sussurra, tem vez que ele grita, mas grita mesmo, de ensurdecer. E mesmo assim você não entende, e faz que entende pra diminuir aquela angústia.

E essa angústia dos gestos que a gente não consegue sacar, que é quase uma dor no pé, que fica ali escondidinha e você só sente quando anda. Tem os gestos que paralisam, que fazem você desistir de tudo que tinha pensado. Aí você para de vez. Ou muda o caminho todo, só por causa daquele gesto. Às vezes é um segurar nas mãos, um dedo que percorre os cabelos, um braço que te puxa, um punho que se fecha. Eles estão por toda parte, pra confundir, pra demonstrar, pra esconder. A gente se apega a eles quando não sabe mais o que fazer. E quando sabe também. Acho que no fundo a gente sempre se pauta nos gestos, que também são as coisas não ditas. É duro pra’queles que só trabalham com o dito.

Os afetos também estão aí. E eles salvam a gente um montão de vezes. Salvam da agonia, da arrogância, da dor que parece que não vai passar, da solidão. Quanta gente o afeto já não salvou de tanta treva? Às vezes a gente nem percebe e tá sendo salvo. Ou nem percebe e tá salvando. E logo eu, que nem gosto dessa coisa de salvar, porque me lembra devoção, e dessa eu tô de boa, descarto sem pena. Mas eu tô falando de salvar mesmo, de puxar pra cima quase como alguém que tá se afogando precisa ser puxado. Daquelas pequenas carícias do cotidiano em que uma mão estendida remete à terra firme que tanto faz falta naquela hora em que você não sabe nem mais onde tá.

Eu comecei falando das palavras, porque eu acho que ultimamente elas têm matado, pelo menos a mim. É, elas matam de verdade, puxam gatilhos muitas vezes. De vez em quando elas matam metaforicamente, destroem mesmo o que as pessoas têm de mais bonito. Momentaneamente ou pra sempre, a pessoa deixa de ser quem ela é (se é que isso existe, pois) pra ser quem ela nunca foi, só por ouvir algumas poucas palavras, ou por deixar de ouvir. Morrer por dentro e reviver, isso que a gente vê nos livros, nos filmes, nas novelas, parece coisa de quem vive na ficção. Dessas pessoas que andam suspirando e olhando paisagens, que caminham sendo leves feito aquelas folhas que voam na ventania. Mas eu acho que um dia todo mundo morre sem morrer, assim como tem gente que todo dia vive sem viver. Morrer é ruim. E tem ausência que mata mais que bala de carabina. Tem gente que mata sem saber. Mas às vezes é uma palavra que a gente diz. Ou que a gente deixa de dizer.

Pra um, pra dois

Eu tinha um amor infinito. Ele quase sempre dormia infinito e, vez ou outra, também acordava infinito. Dependia apenas do quanto eu deixava esse sentir tomar meu dia e de quanto você aparecia. Reticente, não havia sequer uma noite em que não pensava no quanto tinha de impossível nesse sentir, que era infinito. Ora, se são possíveis deixam de ser infinitas? Sei lá. Apenas coincidiu de ser impossível e infinito ao mesmo tempo, fazer o que? Nada, senão segurar os sorrisos para quando aqueles olhos apareciam, e libertá-los por onde havia uma leveza quase triste que ganhava o afago nos lábios se esticando. As bochechas coradas e o aceno tímido. Duas ou três palavras trocadas. E lá estava eu pensando: que amor infinito.

Às vezes aquilo transbordava. E aí eu falava mais que duas ou três palavras. Você respondia, cordial e, vez ou outra, tinha um sorriso. Para mim, às vezes, era mais que suficiente. Não me faltava nada, em suma. A premissa do impossível trazia certa lucidez. Esse pressuposto, então, me deixava tranquila, tranquila. Mas era um amor infinito. Tinha dia em que eu deixava transbordar mais, só pra me livrar daquilo. Não que fosse um peso, nem de longe, mas é quase um pecado guardar amor pra si. Se bem que amor no mundo tem de sobra, falta só fazer dele verbo. Nunca é demais, é fato, então para que guardar?

Também teve um dia em que eu te vi chorar. Não sei se imaginei ou se sonhei. Não sei se aconteceu de verdade. Mas eu vi. Era bonito. Quem disse que chorar é feio? Principalmente você. Você chorava bonito naquele dia. Eu sabia o motivo, acho, e tentei ser uma distração. Eu não me dava tanta importância. Na verdade eu de fato não tinha nenhuma. Mas era uma cena bonita. E eu cheguei a encostar em você nesse dia. Coloquei minhas mãos no seu ombro esquerdo e disse que estaria ali se você quisesse. E você quis. Então fiquei.

Errei. Esperei tanto de mim mesma. Assumi que aguentaria e me esqueci, por vezes, que amor não é sobre isso. E comecei a achar que, se havia amor, que fosse de dois. Amor de um eu já tive vários, muitos mesmo. Não quero mais. Então decidi sem volta que não estaria mais ali pra isso. Só estaria se fosse pra dois. Então fui.

Um poema no caderno

Tantos caminhos
Nestes descaminhos
E eu sozinha
Vou encontrando pecinhas
Aqui, ali, sempre há algo por saber
Desencaixes aos montes
Pra depois construir uma tenda
Onde eu ponho os palpites
E esqueço os trajetos
Que depois recupero
Sem magia, sem cansaço
Só uma linha pontilhada
Com flores sem cheiro
Mas cores a ver
E você

Se a beleza que pesa sobre todas as coisas
Neste tempo que nos sustenta
Não se sabe sequer mais onde está
Este tempo
Que eu só vejo na poesia
Mas sobrevivo
E sou normal também

Criolo: Convoque Seu Buda

A metrópole e suas várias contradições são as temáticas centrais do novo disco do rapper Criolo

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Convoque Seu Buda estava entre as produções mais esperadas do ano, sem dúvida. Para quem curte rap, este foi um ano memorável, inclusive. Entre tantas pérolas aguardadas, o terceiro disco de Criolo estava entre as principais. O disco já tem mais de 1 milhão e 300 mil visualizações (audições, talvez?) no YouTube, onde foi postado em 3 de novembro, data de seu lançamento oficial. Ao mesmo tempo o álbum foi disponibilizado para download no site oficial do artista.

Criolo é conhecido por não se “restringir” apenas ao rap em seus discos, transitando entre diversos outros estilos e gêneros musicais. Em Convoque Seu Buda não é diferente. Elementos que marcam a influência do maracatu, jongo, baião, rock, jazz, black music, reggea, samba, afrobeat, entre outros, estão presentes ao longo do trabalho. As referências, digamos, intelectuais, também chamam atenção com frequência no trabalho do Criolo. Nesse disco, aparecem Sabotage, Ferréz, Sartre, Nietzsche, Perrenoud, Black Alien, Piaget, Edi Rock, ufa, e ainda acho que esqueci de algum.

As letras, bem como a musicalidade, variam de temática, mas possuem marcas específicas. De cara, ouvindo o disco pela primeira vez, notei que o incômodo principal gira em torno das várias contradições da metrópole atual. A falta de moradia (“seu padeiro quer uma casa pra morar”), como uma das centrais, não aparece só de maneira explícita, mas também vai perpassando as faixas, quase de maneira pedagógica. Em Casa de Papelão, Criolo narra a vida nas ruas, fala sobre crack, especulação imobiliária e seu incômodo com a hipocrisia citadina torna-se latente em uma canção impecável. Com direito a um trecho de poema (cujo início já constava em Cerol, música antiga do cantor), os sopros dos arranjos dão a atmosfera dramática que a letra precisa pra ter seu efeito reflexivo, além de um toque meio afrobeat que faz lembrar o Nó Na Orelha.

Há quem diga que as críticas se destinam ao consumismo e à especulação imobiliária. Vou além. Ele fala sobre dinheiro, glamour e, de certa forma, pincela o que enxerga como hipocrisia. A inquietação diante da monetarização da vida (prédios vão se erguer/e o glamour vai colher/corpos na multidão) e de um estilo de vida que pode nos levar ao fim são claras na sequência que se monta em Esquiva da Esgrima (onde o maracatu dá as caras), Cartão de Visita e a já citada Casa de Papelão. O ar meio blues, meio jazz, meio anos 1980 geraram, ao menos pra mim, um tom de deboche em Cartão de Visita. O backing vocal impecável de Tulipa Ruiz, somado ao refrão que vai direto ao ponto, além da incorporação da frase que virou meme (Lázaro, alguém nos ajude a entender) mostram uma das músicas mais bem produzidas do disco. “O sistema exige perfis de TV”, diz Cartão de Visita, lembrando sempre que é também a estrutura que nos fala, a ela falamos e somos também falados.

Um pouco de afrobeat, um tanto de influência nordestina e uns pifes marcam Pegue Pra Ela, a canção que está entre as que mais me intriga no disco. A meu ver, uma união entre a anunciação de uma nova era que não se descola de uma análise (marxista) do meio social. Criolo fala sobre meios de produção e de como a lógica capitalista afeta a cultura. Há que o chame de adorniano, mas pra mim, ele faz aí um tratado sobre cultura de dar inveja a Tom Zé.

Ativismo(s) e a diferença entre a luta nas ruas (“eu que odeio tumulto/não acho insulto manifestação”) e a ilusão de que se vai mudar o mundo sem ação coletiva ou organização política (“mudar o mundo do sofá da sala/postar no insta”) também dão o tom. No clima pós junho de 2013, o cantor também fala sobre a tensão das manifestações que se espalharam pelo país, invocando uma certa espiritualidade, valores como a não-violência e a justiça, mas também alertando para as ações diretas (“mandaram avisar que vão torrar o Centro”) na faixa que dá título ao álbum.

Duas faixas não me chamaram atenção de cara: Plano de Voo e Pé de Breque. A primeira, um rap pesado que nos lembra dos primórdios de sua carreira, começa com frases simples e diretas, mas termina com uma letra sofisticada e bastante sensível. A participação do Síntese acrescenta uma firmeza à letra que, ao mesmo tempo, nos convoca a pensar (a vida é ritual/ parte no meio do mundo a sós num laudo intenso) e agir (desato o nó da trama/ enterro a discórdia no abraço/ rebato os peito de bronze / por trás das barras de aço).

Fermento pra Massa é mais uma daquelas narrativas urbanas que me fizeram pensar que, de fato, o disco fala sobre as vivências na cidade. Um sambinha cheio de cadência sobre um dia de greve dos transportes em São Paulo criam uma história cheia de reflexões e contestações que vão dos transportes, passam pela moradia, corrupção e a fome. A letra é muito bem construída, trata de quase todos os temas presentes no disco como um todo (moradia, cidade, transporte, ativismo social, política), embora o arranjo deixe a desejar. Outra marca do Criolo está em Fermento pra Massa, “farinha e cachaça” pode ser tanto a farinha que se usa pra fazer pão quanto a farinha que se compra na biqueira.

Confesso que não compreendi muito bem o motivo que levou à inclusão de Duas de Cinco. Cóccix-ência, do mesmo EP, ficou de fora. Mas o disco não poderia terminar melhor. O ponto de umbanda unido à voz de Juçara Marçal que, a meu ver, poderia se tornar patrimônio imaterial, são mais um chamado à espiritualidade. “Abra caminho tranquilo pra eu passar” pede Juçara, combinado à convocação de Buda, que abre o disco, mostram a intenção do artista em começar e terminar de maneira coerente. Cheia de frases de proteção e coragem, a faixa merece destaque.

Ah, e pra quem achou que era o Criolo na capa do disco, não é, não. É uma colagem feita pelo Denis Cisma e pelo Lucas Rampazzo a partir de uma imagem (entre tantas) liberada pelo Rijksmuseum, de Amsterdã. Com referências de vários tipos, a arte foi criada começando pela imagem de um oficial da corte da ilha de Java, de 1820, usando sarongue (esse vestidinho aí).

Este trabalho é um chamado à paz. Mas não a uma paz cínica, para poucos. A paz com justiça, para a qual Criolo nos chama, envolve justiça social e muita, muita luta. E algo bom precisa sair de cada um de nós. Essa é a mensagem de Convoque Seu Buda.

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Alguns destaques:

Cartão de Visita é um deboche completo. Ela me lembra, em algum ponto, Freguês da Meia Noite, em que Criolo utiliza um bolero romântico pra narrar uma história sobre drogas e prostituição, brincando com o clichê do gênero. Cartão de Visita não é apenas uma crítica ao consumo desenfreado na sociedade, mas é isso também. Não é apenas um deboche com o estilo de vida de determinadas classes, mas também é. E não é apenas um soul-jazz-meio-hip-hop-anos-80, mas também é.

Criolo fala sobre dinheiro, posse, glamour, hipocrisia, estilo de vida, monetarização da vida, empatia (ou a falta dela). E o deboche começa logo de cara; quando ouço os primeiros “acordes” (que são, na verdade, trechos de músicas) imagino pessoas trocando as estações de rádio numa limousine a caminho de uma festa numa esquina badalada do Rio ou de São Paulo. Em seguida, uma série de artigos de luxo é listada sem pudor, com uma voz trabalhada pra soar arrogante. Os artigos de luxo citados compõem o cenário de uma festa digna de cobertura de paparazzi e quem narra parece ser o promoter. E é aqui que reside, a meu ver, o segundo grande deboche da música e que me lembra muito Bourdieu. Ele fala em itens luxuosos e, no final, pede desculpas se não se apresentou “este é meu cartão, trabalho no buffet”. Ou seja, o arrogante organizador da festa de luxo é um trabalhador, exemplo que poderia ser usado pra ilustrar Gostos de classe e estilos de vida, de Pierre Bourdieu. O consumo de luxo e de marcas consideradas de classe A, para continuar distinguindo as classes sociais, precisa ser exclusivo. Nas palavras de Bourdieu: “Os gostos obedecem, assim, a uma espécie de lei de Engels generalizada: a cada nível de distribuição, o que é raro e constitui um luxo inacessível ou uma fantasia absurda para os ocupantes do nível anterior ou inferior, torna-se banal ou comum, e se encontra relegado à ordem do necessário, do evidente, pelo aparecimento de novos consumos, mais raros e, portanto, mais distintivos” (BOURDIEU, 1976).

Basicamente, o que vale frisar, nesse caso, é a construção do habitus de classe média (o narrador) que tende a se identificar com os valores das classes mais altas (o público da festa em questão).

E os artigos de luxo listados servem como forma de distinção não só para os que vão à festa organizada pelo cara que trabalha no buffet, mas também a ele próprio. Mas não é apenas da distinção via consumo que Criolo fala. “O sistema exige perfis de TV”, me faz lembrar é também a estrutura que nos fala, a ela falamos e somos também falados. Ora, os perfis de TV devem estar na festa e, para isso, o glamour e a presença de VIPs (“MC Lon tá portando VIP / Tássia tem um blog de fina estirpe”) é essencial.

No entanto, as críticas se dão também no âmbito individual, não apenas à estrutura. Quando Criolo diz “Acha que tá mamão, tá bom, tá uma festa / Menino no farol cê humilha e detesta”, é óbvio que fala sobre a estrutura que cria essa desigualdade, mas também chama atenção a um certo comportamento de classe, ao habitus dessa tal tribo descolada que se reúne pra discutir “cotas, copas e afins” mas não olha ao redor, porque “tá uma festa”. Outro grande deboche está também no refrão “parcela no cartão essa gente indigesta” é uma indireta-direta a esta classe média a quem Criolo direciona toda a ironia da música. A mesma classe que “parcela no cartão” todo o glamour do qual desfruta, enxerga uma classe bem mais próxima da sua como “essa gente indigesta” a ser alvo apenas de caridade – ou nem isso.

Ao final do refrão, um sampler dos Racionais me chamou atenção. “Nem tudo que brilha é relíquia nem joia”, trecho de “Artigo 157”, casa muito bem com Cartão de Visita, demonstrando as referências do músico.

Mais um deboche se segue quando o mesmo classe média arrogante diz que “a ignorância só cresce”, ou mesmo antes quando ele diz que quer “dar um clima cult” oferecendo “de brinde ímãs de geladeira com Sartre e Nietzche”. Criolo marca aqui um ponto central em suas discussões sociais, sempre lembrando que, por mais bem intencionados que sejam os “acostumados com sucrilhos no prato”, há sempre um lugar de classe bem demarcado.

Pegue pra Ela começa com baixos bem marcados, percussão leve. Os pifes marcam o que se anuncia em seguida. Um pouco de afrobeat, um tanto de influência nordestina, remetendo a um xaxado latente, lembrando um pouco o baião. A canção Pegue Pra Ela que está entre as que mais me intriga no disco. A meu ver, ela une com maestria a anunciação de uma nova era e uma análise crítica intensa do meio social. Criolo fala sobre meios de produção e de como a lógica capitalista afeta a cultura. Há que o chame de adorniano, mas pra mim, ele faz aí um tratado sobre cultura bastante elaborado e completo.

Já diria Stuart Hall: tenho quase tanta dificuldade com ‘popular’ quanto tenho com ‘cultura’, quando colocamos os dois termos juntos, as dificuldades podem se tornar tremendas. É disso que se trata Pegue Pra Ela. Por um lado, para muitos marxistas, a luta de classes por si só explicaria todo e qualquer processo, reduzindo a cultura a um simples reflexo da base econômica, incapaz de influenciar nas dinâmicas social, econômica e política. Do outro lado estão os chamados culturalistas, para os quais a cultura é que seria determinante. Segundo esta visão, muitos problemas contemporâneos resultantes de diversos fatores (históricos, culturais, sociais, econômicos etc.) se justificam somente pela cultura. Ambas as concepções apresentam problemas. Uma por admitir que a cultura estaria acima das determinações materiais da sociedade e, portanto, em um estágio superior, de “elevação” do ser humano; a outra por enxergar a cultura como campo secundário da vida. Criolo parece não se prender a nenhuma dessas concepções, mas sim se aproximar da perspectiva dos estudos culturais, na qual a noção de que a cultura fala mais sobre as disputas e os processos de transformação para os quais a cultura é ambiente fértil.

Acredito que esta música é uma análise sobre cultura porque ela dá conta de um universo de complexidades que estão em jogo quando se discute cultura. Digo isso porque ele de cara já enquadra sua análise na perspectiva dialética marxista “Toda indústria tem no comércio / Seu ponto de reprodução / Então, se pra cada ponto, processo / E cada processo uma ação”. Ele reconhece que tudo é processo e que cada processo gera uma ação (e ao mesmo tempo é uma ação), o que pra mim remete, em certo sentido, a uma perspectiva de resistência mesmo. Criolo está resumindo o modo de produção capitalista e, ao mesmo tempo, apontando um horizonte dialético em que reforça que “pra cada ponto, processo e cada processo uma ação”. Logo de cara, ele anuncia “essa nossa canção” e pede para que “conte pra ela dessa nova estação”, o que me fez pensar muito nas iniciativas culturais independentes e nas novidades que esses coletivos de arte significam. Como militante, entendo a “nossa canção” como uma forma de indicar uma ação coletiva e a “nova estação” como realmente uma nova forma de se produzir cultura ou mesmo de resistir à cultura como espetáculo/comércio.

Em seguida, Criolo utiliza a mesma linha de raciocínio pra falar sobre cultura “Toda cultura vira comércio / É o ponto de degradação / Então, se pra cada ponto, processo / E cada processo uma ação”. Nesse sentido, ele está dizendo, pra mim, que a cultura se adapta ao modo de produção capitalista, sem dúvida. Mas reconhecendo, mais uma vez, o processo e a ação. Enxergo que ele questiona sim a possibilidade de “degradação” da cultura quando esta vira comércio, no entanto, ele repete que lá está o processo e a ação, seja pra resistirmos a esta degradação, seja pra denunciarmos, seja pra escolhermos degradar (conter) pra depois resistir.

Por isso nem de longe enxergo como uma análise adorniana, já que outra estrofe que se repete é “Pra cada toco dentro do eixo / Quebra queixo dessa questão”, que pra mim remete a quem decide disputar (ideológica e esteticamente) a cultura de massas, ou ser o “toco dentro do eixo” que “quebra” o que está até então estabelecida. E “Pra cada louco fora do eixo / Quebra queixo dessa questão”, continuação da mesma estrofe, a meu ver é um embaralhamento do sentido de “fora do eixo”. Ele ao mesmo tempo está falando de quem decidiu resistir à indústria cultural ao invés de disputá-la e de como isso pode ser ambíguo, já que remete ao próprio Fora do Eixo (o coletivo). É complexo, o artista está o tempo todo reconhecendo isso, falando sobre todas as contradições, ambiguidades e complexidades de se fazer as duas coisas – disputar “por dentro” e “por fora”.

Além disso, ao mesmo tempo em que o rapper localiza a cultura dentro do espectro da produção capitalista, quando ele diz que “Essa nave já vai partir / E carrega uma multidão”, penso que ele fala sobre uma certa insatisfação coletiva que diz respeito não somente ao sistema econômico, mas também a tudo que está ao nosso entorno: a cidade (temática central do disco), a cultura, o trabalho, o consumo, o espetáculo (que prioriza sempre a noção de que na cultura há a eterna divisão entre espectadores e produtores). Pra mim, a nave é a novidade, a anunciação, como se as pessoas estivessem finalmente se organizando em multidões insatisfeitas e que querem “convocar seu buda” pra transformar o mundo através também da cultura. É claro que, novamente, ele aponta que existe o tal “eixo” em que ou se está dentro, ou se está fora, mas o horizonte da resistência se apresenta, enfim.

Em relação à questão estética, não acredito que seja por acaso a influência nordestina na produção de Pegue Pra Ela. Até o sotaque do cantor muda pra entoar a letra com mais vigor, o R de “partir”, o E de “questão” (que vira quéstão) e o O de “reprodução” (que vira répródução), entre outros detalhes, que também fazem referência a outra música do disco, Esquiva da Esgrima (“é que eu sou fi de cearense, a caatinga castiga e meu povo tem sangue quente”). Creio que essa quantidade de referências ao nordeste não diz respeito apenas às origens de Criolo, mas também ao seu desejo de mostrar a diversidade cultural da região e trazer isso como um elemento constitutivo da cidade grande atual. A forte presença nordestina, principalmente em São Paulo, precisa ser valorizada também pela bagagem cultural do povo migrante, e não apenas pelo suor de seus rostos. Criolo ajuda a ressignificar tudo isso nesta obra prima chamada Pegue Pra Ela.

Este texto é uma versão mais longa do que foi inicialmente publicado no Outra Página.

As telas

Num mundo de tantas coisas possíveis, eu fico sempre confusa. Essa coisa mesmo da gente poder falar com as pessoas a hora que quiser. Quando é demais? Quando é de menos? Será que tem uma quantidade certa de afeto que a gente pode dar sem assustar? Sei lá, a coisa da conversa mesmo. Porque se pode falar a qualquer momento, por que não falar? Né? Tipo, por que ter de ficar controlando ou contendo ou administrando? Tem a coisa sexual também. Quando pode? Sendo mulher essa pergunta tem um sentido um tiquinho diferente, inclusive.

E eu pergunto também: quando será que a pessoa sai dali da janelinha e o que ela fala sai dos balõezinhos mediados por telas? Será que sai? É tanta possibilidade que eu fico realmente confusa.

Porque se a gente pode falar qualquer hora, por que então a pessoa não fala também? Tipo, a iniciativa de começar a conversa. “Qualquer um pode puxar papo, mas por que sou sempre eu?”, tem essa pergunta também. E tem as regras as pessoas criam, algo como “tem de esperar ele falar, mas se demorar muito e você estiver com saudade, aí pode”. Mas às vezes nem demora esse muito, e a gente já tá com saudade. Aí como administra?

E é tudo tão substituível, né? Existe um posto que a gente às vezes ocupa, de pessoa com quem a pessoa mais fala, talvez. E de pessoa com quem a pessoa sente vontade de puxar papo e também segura. Ou puxa sempre, quando tem vontade. Mas aí tem a vida, tem o corre corre, o trabalho, a família. Não tem? Todo mundo tem. E aí às vezes vem outra pessoa praquele “posto”.

E essa coisa de morar longe atrapalha tanto, né? Nossa, atrapalha demais. Porque se não fosse isso os balõezinhos poderiam virar ondas sonoras bem próximas umas das outras. E as janelinhas seriam uma mesa de bar ou uma rua ou um sofá ou uma cama. Mas às vezes tem uma serra separando, uma Dutra, uma BR. Às vezes tem um oceano inteiro.

Porque tem o afeto e tem um monte de confusão em torno dele. Parece que isso aqui deixa tudo mais móvel, mais fluido. Daí a gente não sabe se o que a pessoa diz é de verdade (mesmo que seja verdade só naquela hora, poxa) ou se ela tá mandando o famoso “papinho”. Se era verdade quando ela disse e depois mudou, ou se ela nem se lembra que disse. Imagina? Loucura.

E também tem gente cruel, né? Aquelas pessoas que alimentam um tanto de coisa e depois não era nada. Era só porque elas queriam alguém ali pra fazer um carinho na autoestima delas. Ou porque elas tinham tempo sobrando, um tico de tédio e um tanto de “não me importo”.

Nossa, mas tem tanta gente legal também. E tem tanto amor possível. Ou não necessariamente amor, mas aquela coisa de “uau, que delícia” também tem aqui. E é legal, né? Eu acho. E tem afeto, tem bastante afeto. A pessoa às vezes só sente isso, inclusive. Ou naquele momento é só aquilo, aí quando o balãozinho vira som, tcharã, tem outras coisas. Que podem acabar quando vocês pagarem a conta (do que quer que seja). Mas também pode acabar semana que vem. Ou pode não acabar, né? Quem sabe?

Eu sei de tudo isso, embora boa parte nem tenha acontecido comigo. Mas eu continuo sempre confusa. E sempre perguntando: será que eu posso falar? Será que acabou só o assunto? Será que acabou o interesse?

O balãozinho vai ser sempre balãozinho com umas telas mediando?

Artigo: Cidades desiguais e coreografias de resistência

Este artigo está disponível, em versão resumida, nos Anais do X Encontro de Estudos Multidisciplinares em Cultura (ENECULT) e foi apresentado durante o Encontro. As alterações foram pequenas, fiz para adequação ao formato do Enecult, mas o trabalho completo você pode baixar aqui.

Resumo: O objetivo deste trabalho é reunir reflexões sobre os processos de espetacularização dos grandes centros urbanos brasileiros, bem como as consequências e resistências em torno destes processos. Partindo das transformações urbanísticas – que também são frutos de escolhas políticas – sofridas pelo Rio de Janeiro ao longo dos séculos, destacamos o aumento da desigualdade e as tentativas de expulsão das populações de baixa renda das áreas centrais como principais consequências, mas não as únicas. Desdobrando esse movimento, observamos a repressão ao lazer dessas classes, bem como as barreiras impostas à construção de outras formas de vivência dos espaços urbanos.

Utilizamos como exemplos dessas consequências a proibição dos bailes funk no Rio de Janeiro durante a década de 1990 e a recente repressão aos chamados rolezinhos. Entendendo a semelhança entre as origens de classe dos participantes dos rolezinhos e dos principais produtores e consumidores de funk na década de 1990, traçamos um paralelo entre os dois acontecimentos. A reflexão sobre as vivências na cidade e a democratização do espaço urbano permeiam os debates presentes neste ensaio. Apontamos também dois exemplos de resistência a esse processo: as Rodas de Funk e o Sarau Apafunk, ambos organizados pela Associação dos Profissionais e Amigos do Funk (Apafunk) no Rio de Janeiro.

Para ler o artigo completo clique aqui.

Sobre privilégios e male tears

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Vou falar sobre um assunto incômodo pra maioria das mulheres, mas que gera uma série de ataques de homens (por mais apoiadores do feminismo que sejam). Pequena história: uma mulher aponta um entendimento machista num discurso, seja ele qual for – texto, foto, vídeo, música, fala pública ou privada, enfim -, e um homem reverte o questionamento deslegitimando o argumento dela. Muitas vezes, além de tudo, o homem insinua que a machista é a mulher e insiste em silenciar a crítica feita, mesmo ela sendo mulher e ele homem. Pois é. Acho que não conheço nenhuma feminista que nunca tenha passado por isso. Então, resolvi pensar sobre.

É muito importante que os homens sejam aliados na luta contra o machismo, a desigualdade de gênero, as violências. Gosto quando amigos meus interpelam outros e questionam o machismo introjetado, quando postam nas redes sociais vídeos machistas para denunciar, quando relatam episódios machistas no cotidiano e mostram-se indignados. É importante, é legal, eu incentivo, e a maioria das feministas faz o mesmo. No entanto, isso não coloca o homem no lugar do oprimido. Não é ele – por mais que relate, que se indigne, que se revolte – quem sofre na pele os encoxamentos no busão, as agressões no trabalho, os silenciamentos em relacionamentos, a violência simbólica midiátia, os julgamentos. Essa condição, embora martelada, precisa ser apontada. E por que? Porque ela é essencial para definir o protagonismo, em toda a sua plenitude. Desenvolvo, seguindo o mote do silenciamento.

Não é, em hipótese alguma, papel do homem dizer como as mulheres devem lutar por direitos. Não é o homem quem deve dizer como devem as feministas se comportar. Não é ele quem deve definir, teórica e praticamente, as linhas a serem perseguidas pelos coletivos de mulheres. Também nos parece óbvio, mas a retirada do lugar de autoridade dos homens é um tijolo pesado a se carregar nessa construção. Por mais apoiadores que sejam, não aceitam que não podem dar a diretriz. Perder privilégios, principalmente o da fala, é difícil de engolir. E argumentam contra isso das mais diversas formas, começando pela ideia de que os movimentos precisam aprender a dialogar, passando pelo ‘sou humanista’ e terminando em ‘vocês são radicais extremistas’.

Os homens são cerca de 90% na política institucional. Isso quer dizer que eles decidem o que faremos todos e todas, homens e mulheres, em todos os âmbitos da nossa vida. Eles legislam, aplicam as leis, as fiscalizam e direcionam. Os homens acusam, defendem e dão veredito. Os homens escrevem, propõem e votam. E as mulheres? A elas só resta falar, na pequena parte do tempo a elas destinado. E também na maior parte do tempo são silenciadas, seja pela avalanche de falas masculinas que se seguem, seja pelo machismo institucionalizado.

Os homens são maioria na militância política. Eles se organizam em coletivos dos mais diversos em que mulheres parecem ser bem vindas, mas só se não tiverem filho pra criar (não tem creche e nem quem cuide pra que elas participem) e se puderem lidar com todo tipo de discurso machista, declarado ou enrustido. No movimento estudantil, por exemplo, elas estão sempre presentes, mas quem são os coordenadores de instâncias representativas? Somos também esmagadora minoria.

Os homens também são os donos do capital. São maioria nos cargos de chefia de empresas multinacionais, grandes, médias e pequenas. São eles quem decidem pra onde circula a grana. E as mulheres? Bem, elas cavam aqui e ali uma vaguinha de gerente executiva, e seguem ganhando menos do que homens que ocupam os mesmos cargos.

Feitos estes apontamentos, para além dos relatos diários das violências sofridas, pergunto: quem deve, portanto, protagonizar, dar diretrizes, teorizar, praticar, decidir, enfim, sobre o feminismo? Quem tem direitos sobre este espaço que é praticamente o único em que somos ouvidas, levadas em conta, tratadas com igualdade? A resposta é uma só: as mulheres. Por mais que se tente, o homem não consegue se desamarrar da condição privilegiada. Sim, há um grupo oprimido, entre muitos, a que me refiro aqui, e são as mulheres. Para que esse grupo seja oprimido, um outro possui privilégios, os homens. Quando digo “os homens”, aqui, não falo de pessoas específicas (embora elas se enquadrem, obviamente, afinal elas existem). Falo da instituição patriarcal em si, que confere aos homens privilégios e às mulheres opressões. Portanto, não há igualdade alguma. E em se partindo de pontos desiguais, não há possibilidade de equalizar as vozes dentro da desigualdade. Dessa forma, cabe aos homens aceitarem seu lugar de privilégio e denunciarem este lugar.

Onde quero chegar? Quero dizer que entendo os esforços de alguns homens que enxergam no feminismo uma forma também de libertação própria, afinal, como disse Simone de Beauvoir, “querer-se livre é também querer livres os outros”. E sim, o feminismo também liberta os homens. Mas não, ele não é sobre os homens. Não são os homens, portanto, que devem apontar os rumos do feminismo, questionar as decisões femininas e, acima de tudo, protagonizar a luta. Não são os homens que devem julgar o que é feminismo e o que não é. A autocrítica dos homens, portanto, deve prevalecer.

Este lugar cômodo ocupado por eles deve ser questionado sempre que possível. E quando não aceitarem, como na maioria das vezes, ter seu lugar de autoridade colocado em xeque, isso deve ser apontado. D

 

Mais sobre isso, texto da Lola, antigo, mas muito bom:

http://escrevalolaescreva.blogspot.com.br/2011/11/homexplicanismo-merecimento-e-pedestais.html?m=1