O recado da elite

Quando decidiram chamar de arrastão a insurgência de garotos que circulavam pelas praias porque não tinham como voltar pra casa após seu divertimento na noite, nos anos 90: botaram na conta do funk. Quando denunciaram na imprensa a “feira de drogas a céu aberto”, diziam que era na porta dos bailes de favela: botaram na conta do funk. Quando morreu de Tim Lopes: botaram na conta do funk. O fantasma é sempre o funk, nunca é a falta de transporte público, a guerra aos pobres causada pelo proibicionismo que afeta a política de drogas, a violência urbana sustentada pelo Estado. Nunca é.

Agora, grupos de jovens decidem ocupar mais espaços e, claro, botaram na conta do funk. Acontece que ninguém questiona que esses garotos são impedidos de circular pela cidade como indivíduos. O “rolezinho” não existe por acaso. Esses meninos carregam consigo o estigma do criminoso em potencial. Quando a senhora comedora de pizza de picanha com catupiry diz que “tem de proibir esse tipo de maloqueiro de entrar num lugar como este” está dando um recado claro: aqui não é lugar pra vocês, pobres, pretos, favelados, funkeiros. E quando a matéria* que reportou o caso decide começar se referindo ao funk como fantasma, também está dando um recado claro: botamos na conta do funk. A elite diz que a cidade é dela. Não se pode botar na conta da falta do direito à cidade. A culpa é dos maloqueiros-ouvidores-de-funk-ostentação.

Vendo algumas pessoas falarem sobre isso, notei que há um incômodo sério em relação ao funk ostentação, inclusive no discurso daqueles que se dizem democráticos e livres de preconceito. Alguns, inclusive, chamam de “consumismo doentio”. Ora, sintomática hipocrisia essa que nos faz pensar que pobres, pretos e favelados, incentivados ao consumo há pelo menos uma década, não devem consumir de forma exagerada. Sintomática hipocrisia que diz que favelado não pode ter TV de LED. Sintomática hipocrisia que diz que o funk ostentação é que levou esses jovens ao consumo. Me assusta a cegueira pra um todo social que praticamente nos obriga a consumir o tempo todo (vide obsolescência programada), mas quando a favela quer comprar, é supérfluo, é culpa do funk ostentação.

A polêmica entre o conformismo do consumo e a resistência atribuída a essa juventude é saudável, deve ser debatida. Mas não nesses marcos excludentes. Não se trata aqui de defender o consumo como um valor revolucionário ou mesmo importante na prática. Mas pensar sobre o consumo nos ajuda a pensar sobre o estágio atual do sistema capitalista, principalmente em relação à juventude. Por que o consumo dos chamados itens de luxo por parte desses jovens favelados incomoda tanto? Não seria, no limite, o mesmo argumento de quem defende que não se pode comprar Danoninho com Bolsa Família?

O funk é contraditório, a cultura popular é contraditória. Entender as nuances que compõem e afetam a lógica do funk ostentação, nos ajuda a pensar o impacto do consumo (e do consumismo) na sociedade em que vivemos. Só acredito que isso nunca pode ser feito nos marcos do elitismo acadêmico e do ódio de classe. Relativizar é preciso, porque o fantasma é sempre o funk, o preto, o favelado. O fantasma nunca é a elite e seus ditames.

*http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2013/12/1386132-mesmo-sem-crimes-rolezinho-causou-panico-e-levou-policia-a-shopping-de-guarulhos.shtml

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