As telas

Num mundo de tantas coisas possíveis, eu fico sempre confusa. Essa coisa mesmo da gente poder falar com as pessoas a hora que quiser. Quando é demais? Quando é de menos? Será que tem uma quantidade certa de afeto que a gente pode dar sem assustar? Sei lá, a coisa da conversa mesmo. Porque se pode falar a qualquer momento, por que não falar? Né? Tipo, por que ter de ficar controlando ou contendo ou administrando? Tem a coisa sexual também. Quando pode? Sendo mulher essa pergunta tem um sentido um tiquinho diferente, inclusive.

E eu pergunto também: quando será que a pessoa sai dali da janelinha e o que ela fala sai dos balõezinhos mediados por telas? Será que sai? É tanta possibilidade que eu fico realmente confusa.

Porque se a gente pode falar qualquer hora, por que então a pessoa não fala também? Tipo, a iniciativa de começar a conversa. “Qualquer um pode puxar papo, mas por que sou sempre eu?”, tem essa pergunta também. E tem as regras as pessoas criam, algo como “tem de esperar ele falar, mas se demorar muito e você estiver com saudade, aí pode”. Mas às vezes nem demora esse muito, e a gente já tá com saudade. Aí como administra?

E é tudo tão substituível, né? Existe um posto que a gente às vezes ocupa, de pessoa com quem a pessoa mais fala, talvez. E de pessoa com quem a pessoa sente vontade de puxar papo e também segura. Ou puxa sempre, quando tem vontade. Mas aí tem a vida, tem o corre corre, o trabalho, a família. Não tem? Todo mundo tem. E aí às vezes vem outra pessoa praquele “posto”.

E essa coisa de morar longe atrapalha tanto, né? Nossa, atrapalha demais. Porque se não fosse isso os balõezinhos poderiam virar ondas sonoras bem próximas umas das outras. E as janelinhas seriam uma mesa de bar ou uma rua ou um sofá ou uma cama. Mas às vezes tem uma serra separando, uma Dutra, uma BR. Às vezes tem um oceano inteiro.

Porque tem o afeto e tem um monte de confusão em torno dele. Parece que isso aqui deixa tudo mais móvel, mais fluido. Daí a gente não sabe se o que a pessoa diz é de verdade (mesmo que seja verdade só naquela hora, poxa) ou se ela tá mandando o famoso “papinho”. Se era verdade quando ela disse e depois mudou, ou se ela nem se lembra que disse. Imagina? Loucura.

E também tem gente cruel, né? Aquelas pessoas que alimentam um tanto de coisa e depois não era nada. Era só porque elas queriam alguém ali pra fazer um carinho na autoestima delas. Ou porque elas tinham tempo sobrando, um tico de tédio e um tanto de “não me importo”.

Nossa, mas tem tanta gente legal também. E tem tanto amor possível. Ou não necessariamente amor, mas aquela coisa de “uau, que delícia” também tem aqui. E é legal, né? Eu acho. E tem afeto, tem bastante afeto. A pessoa às vezes só sente isso, inclusive. Ou naquele momento é só aquilo, aí quando o balãozinho vira som, tcharã, tem outras coisas. Que podem acabar quando vocês pagarem a conta (do que quer que seja). Mas também pode acabar semana que vem. Ou pode não acabar, né? Quem sabe?

Eu sei de tudo isso, embora boa parte nem tenha acontecido comigo. Mas eu continuo sempre confusa. E sempre perguntando: será que eu posso falar? Será que acabou só o assunto? Será que acabou o interesse?

O balãozinho vai ser sempre balãozinho com umas telas mediando?

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