Sobre privilégios e male tears

Imagem

Vou falar sobre um assunto incômodo pra maioria das mulheres, mas que gera uma série de ataques de homens (por mais apoiadores do feminismo que sejam). Pequena história: uma mulher aponta um entendimento machista num discurso, seja ele qual for – texto, foto, vídeo, música, fala pública ou privada, enfim -, e um homem reverte o questionamento deslegitimando o argumento dela. Muitas vezes, além de tudo, o homem insinua que a machista é a mulher e insiste em silenciar a crítica feita, mesmo ela sendo mulher e ele homem. Pois é. Acho que não conheço nenhuma feminista que nunca tenha passado por isso. Então, resolvi pensar sobre.

É muito importante que os homens sejam aliados na luta contra o machismo, a desigualdade de gênero, as violências. Gosto quando amigos meus interpelam outros e questionam o machismo introjetado, quando postam nas redes sociais vídeos machistas para denunciar, quando relatam episódios machistas no cotidiano e mostram-se indignados. É importante, é legal, eu incentivo, e a maioria das feministas faz o mesmo. No entanto, isso não coloca o homem no lugar do oprimido. Não é ele – por mais que relate, que se indigne, que se revolte – quem sofre na pele os encoxamentos no busão, as agressões no trabalho, os silenciamentos em relacionamentos, a violência simbólica midiátia, os julgamentos. Essa condição, embora martelada, precisa ser apontada. E por que? Porque ela é essencial para definir o protagonismo, em toda a sua plenitude. Desenvolvo, seguindo o mote do silenciamento.

Não é, em hipótese alguma, papel do homem dizer como as mulheres devem lutar por direitos. Não é o homem quem deve dizer como devem as feministas se comportar. Não é ele quem deve definir, teórica e praticamente, as linhas a serem perseguidas pelos coletivos de mulheres. Também nos parece óbvio, mas a retirada do lugar de autoridade dos homens é um tijolo pesado a se carregar nessa construção. Por mais apoiadores que sejam, não aceitam que não podem dar a diretriz. Perder privilégios, principalmente o da fala, é difícil de engolir. E argumentam contra isso das mais diversas formas, começando pela ideia de que os movimentos precisam aprender a dialogar, passando pelo ‘sou humanista’ e terminando em ‘vocês são radicais extremistas’.

Os homens são cerca de 90% na política institucional. Isso quer dizer que eles decidem o que faremos todos e todas, homens e mulheres, em todos os âmbitos da nossa vida. Eles legislam, aplicam as leis, as fiscalizam e direcionam. Os homens acusam, defendem e dão veredito. Os homens escrevem, propõem e votam. E as mulheres? A elas só resta falar, na pequena parte do tempo a elas destinado. E também na maior parte do tempo são silenciadas, seja pela avalanche de falas masculinas que se seguem, seja pelo machismo institucionalizado.

Os homens são maioria na militância política. Eles se organizam em coletivos dos mais diversos em que mulheres parecem ser bem vindas, mas só se não tiverem filho pra criar (não tem creche e nem quem cuide pra que elas participem) e se puderem lidar com todo tipo de discurso machista, declarado ou enrustido. No movimento estudantil, por exemplo, elas estão sempre presentes, mas quem são os coordenadores de instâncias representativas? Somos também esmagadora minoria.

Os homens também são os donos do capital. São maioria nos cargos de chefia de empresas multinacionais, grandes, médias e pequenas. São eles quem decidem pra onde circula a grana. E as mulheres? Bem, elas cavam aqui e ali uma vaguinha de gerente executiva, e seguem ganhando menos do que homens que ocupam os mesmos cargos.

Feitos estes apontamentos, para além dos relatos diários das violências sofridas, pergunto: quem deve, portanto, protagonizar, dar diretrizes, teorizar, praticar, decidir, enfim, sobre o feminismo? Quem tem direitos sobre este espaço que é praticamente o único em que somos ouvidas, levadas em conta, tratadas com igualdade? A resposta é uma só: as mulheres. Por mais que se tente, o homem não consegue se desamarrar da condição privilegiada. Sim, há um grupo oprimido, entre muitos, a que me refiro aqui, e são as mulheres. Para que esse grupo seja oprimido, um outro possui privilégios, os homens. Quando digo “os homens”, aqui, não falo de pessoas específicas (embora elas se enquadrem, obviamente, afinal elas existem). Falo da instituição patriarcal em si, que confere aos homens privilégios e às mulheres opressões. Portanto, não há igualdade alguma. E em se partindo de pontos desiguais, não há possibilidade de equalizar as vozes dentro da desigualdade. Dessa forma, cabe aos homens aceitarem seu lugar de privilégio e denunciarem este lugar.

Onde quero chegar? Quero dizer que entendo os esforços de alguns homens que enxergam no feminismo uma forma também de libertação própria, afinal, como disse Simone de Beauvoir, “querer-se livre é também querer livres os outros”. E sim, o feminismo também liberta os homens. Mas não, ele não é sobre os homens. Não são os homens, portanto, que devem apontar os rumos do feminismo, questionar as decisões femininas e, acima de tudo, protagonizar a luta. Não são os homens que devem julgar o que é feminismo e o que não é. A autocrítica dos homens, portanto, deve prevalecer.

Este lugar cômodo ocupado por eles deve ser questionado sempre que possível. E quando não aceitarem, como na maioria das vezes, ter seu lugar de autoridade colocado em xeque, isso deve ser apontado. D

 

Mais sobre isso, texto da Lola, antigo, mas muito bom:

http://escrevalolaescreva.blogspot.com.br/2011/11/homexplicanismo-merecimento-e-pedestais.html?m=1

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: