VALESCA, A BREGUICE E O PODER

Uma crítica – em forma de ensaio – de Beijinho no Ombro

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Não me sinto inteiramente segura ainda para produzir uma crítica estética, musical e de diversas outras naturezas sobre o novo clipe de Valesca Popozuda, Beijinho no Ombro. Os Popofãs esperaram ansiosos para o lançamento do videoclipe que, segundo o site Ego, custou cerca de 400 mil reais. Vou tentar aqui, em forma de ensaio, jogar alguns questionamentos para reflexão.

Valesca, como tem-se por notório, atravessa uma nova fase na carreira. Agora solo, deixou sua irmã no comando da Gaiola das Popozudas e resolveu trilhar seu próprio caminho. Beijinho no Ombro parece ser, então, o primeiro passo que coroa essa nova fase. Há quem diga que está mais “comportada”, há quem diga que está seguindo os passos de Anitta, considerada como pasteurizada, há quem diga que se inspirou demais na diva pop internacional Beyoncé. Mas o que de fato me incomoda são as críticas claramente classistas e autoritárias.

Quando foi lançado o teaser de Beijinho no Ombro, em novembro, a revista Veja publicou uma crítica intitulada “Existe o brega, o muito brega e o novo clipe de Valesca Popozuda”. O argumento não impressiona, tendo vindo de onde veio?. O que decepciona é ver esse mesmíssimo argumento saindo das bocas (ou dos teclados) de quem se diz super progressista e democrático.

O clipe 

ImageOs produtores escolheram um castelo, uma poltrona real, um manto e cetros como componentes centrais da estética de Beijinho no Ombro. O objetivo era dar à Valesca uma posição de rainha do funk, lugar esse que a mídia corporativa tenta de todas as formas oferecer à Anitta (durante um programa do Faustão, o apresentador repetiu mais de 20 vezes, contadas por mim, a frase “Anitta, a rainha do funk”). Vale frisar, também, que essa tensão entre Anitta e Valesca, ao que parece, é muito mais forjada por essa mídia do que pelo próprio mundo funk.

Contracenar com animais como o tigre e a águia dão um ar poderoso à cantora. Um lugar de dominação do ambiente ao redor, e não falo apenas do ambiente em que o clipe se passa, mas da cena funk como um todo. O clipe, chuto dizer, é uma forma de dizer que Valesca, ainda mais poderosa e empoderada, tem o total controle do que diz e faz.

A iluminação baixa do início, a mistura do fúnebre com toques de batidas clássicas do funk e do tamborzão, compõem um tom obscuro que é rompido pela chegada de Valesca. Os figurinos dos dançarinos todos opacos e os tons de vermelho exibidos pela funkeira a colocam numa outra posição em relação a eles. A coreografia é simples e menos importante que letra da música, pelo menos na minha impressão. O que chama atenção, então, é o lugar que Valesca ocupa desde o início do vídeo: o de rainha.

Mas, Mariana, e o feminismo?

Essa é a pergunta que muitos me fizeram e fazem. Alguns, com uma genuína dúvida. Outros, em tom retórico. Digo isso porque existe uma esquerda academicista (da qual não faço parte) que se apega com unhas e dentes a um autoritarismo intelectual grosseiro. Esses, então, se usam do “gostaria de entender”, mas não conseguem esconder sua indignação com a hipótese de que grupos subalternizados possam produzir sua própria pauta. E quando aceitam essa premissa, transformam essa pauta em rebaixada e inferior (vide o quanto demoraram a aceitar que o Rap da Felicidade pudesse ser música de protesto). Nesses termos e com essa arrogância, não pretendo iniciar ou manter qualquer debate.

ImageReafirmo aqui o que já disse diversas vezes: o discurso feminista não é inerente ao funk feminino (ou produzido por mulheres, como queiram chamar). É um discurso conquistado e conquistador, pouco legitimado, mas muito legitimador. Nesse sentido, é importante frisar que a pauta do empoderamento é essencial para as mulheres que possuem a mesma origem do funk. Faveladas, alheias ao consumo do qual disfruta a classe média (fator máximo de inclusão para a sociedade atual) e pouco escolarizadas, essas mulheres precisam de quem lhes empoderem e, acima de tudo, construir seu próprio empoderamento.

Não digo, aqui, que ele já não existe. Muitas mulheres de favela hoje são arrimo de família, enfrentam tripla jornada e são plenamente conscientes do machismo. O que se vê, então, é uma possibilidade de outras formas de empoderamento, através do discurso dos corpos livres, da liberdade sexual e da posição de poder que, ao longo dos séculos, só era possível para os homens. Não, essa pauta não representa uma “ruptura concreta e radical com o sistema capitalista”. Ela representa transformações possíveis em um universo em que dar de comer aos filhos é prioridade, numa sociedade em que mães solteiras ainda são alvo de preconceito.

É claro que a “sororidade”, conceito, inclusive, bastante polêmico e não-consensual entre as feministas (acadêmicas ou não) não está presente nessa e em muitas outras letras da Valesca. E aí, o feminismo acadêmico, embora tenha razão em muitas de suas críticas, peca por sua visão classista e pouco inclusiva. A sororidade é ausente nas letras de músicas, mas não para um grupo social como um todo. A análise semiótica da letra de Beijinho no Ombro nos mostraria, de fato, um incentivo à competitividade feminina, elemento tão desmobilizante, como aponta Naomi Wolf em O Mito da Beleza. Mas o que o essa ausência não pode nos fazer ignorar é a capacidade de empoderamento presente tanto no conceito estético adotado pelos produtores, como no contexto em que Valesca se insere.

Outro elemento importante, no qual não pretendo me aprofundar, é a exigência da humildade. Tenho percebido que, assim como no rap, o funk tem demonstrado cada vez mais que não quer para si o lugar da humildade. Quer ter os mesmos direitos, o mesmo acesso ao consumo e ocupar os mesmos espaços da elite e da classe média, seja via consumo, via política ou disputa pelo direito à cidade.

Critério estético: quando grupos distintos se mostram de braços dados

ImageQue critérios estéticos definem como “brega” a linguagem e o argumento escolhidos para formular o clipe e a música de Valesca? Parece claro: os mesmos critérios que colocam a elite e a classe média em seu lugar de poder, como divos soberanos da escolha do que se pode ou não se pode gostar. Suponhamos que esse mesmo clipe fosse encenado, por exemplo, por Lady Gaga? A lógica seria outra, não? Dói na elite e na classe média que essas pessoas ocupem os mesmos espaços que elas, que utilizem as mesmas ferramentas, que produzam seu próprio discurso.

Como há muito não via, pude notar que, um grupo que costuma divergir sempre das opiniões publicadas na Veja, dessa vez estava de braços dados com a revista. O argumento da “breguice” me parece bastante aglutinador, nesse caso. A “falta de classe” inerente à Valesca e outras funkeiras a impede, segundo essas pessoas, que ela produza um videoclipe com essa linguagem, que use um figurino que poderia ser utilizado por Beyoncé, e que se mostre empoderada, e não no seu lugar humilde e subalterno.

 

Texto: Mariana Gomes

Revisão e bons pitacos: Raquel Moreira-Meade

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