Solo não dócil, esperança fóssil

Eles querem que alguém que vem
De onde nós vem
Seja mais humilde, baixe a cabeça
Nunca revide, finja que esqueceu a coisa toda
Eu quero é que eles se foda
(Emicida – Mandume)

Tem sido difícil viver no Rio de Janeiro. Mas o mito da cidade simpática nunca me enganou, na verdade. Vivo aqui há cinco anos (sem contar os outros quatro bem vividos na terra de Arariboia) e, bastou que eu olhasse com um pouquinho de atenção para perceber que simpatia não é quase amor.

A praia, essa instituição sagrada do carioca, que não pode ser violada pela presença não subalterna de jovens negros da periferia e da zona norte, não é tema de 2015. Hoje mesmo estava me lembrando de um texto da Fernanda Torres que, por uns instantes, cheguei a achar que era deboche. Nele, ela dizia que a praia no Rio era democrática, “o lugar onde as diferenças se anulam”. Me lembrei também da moça que chama os jovens negros periféricos de “sub-raça”, mas que depois de alguns anos repensou sua fala infeliz.

Os tais arrastões, fenômeno – acima de tudo, mas não apenas – midiático por excelência, dizem que Fernanda está mal informada. Eles já serviram até pra proibir baile funk quando eu era bem pequenininha e nem sonhava em viver aqui. Eles podem ser analisados a partir de inúmeros pontos de vista, mas nem de longe podem ser tratados como “roubos comuns”. E não acontecem só no Rio de Janeiro, também vale dizer, como mostra o Palombini aqui.

Talvez eles sejam uma resposta, uma reação baseada no cansaço, na indignação pela total ausência de direitos básicos (incluindo o lazer). Talvez sejam jovens querendo se afirmar, como diz o Diogo Pereira no facebook. O fato é que parece existir um forte interesse de certos grupos em disseminar o terror. Redução da maioridade penal, Rio cidade olímpica, junho de 2013, lazer da classe trabalhadora, contexto de polarização política. Tudo isso é palavra-chave pra gente pensar esse fenômeno e principalmente a reação da mídia hegemônica e das autoridades em relação a ele.

Vence o Datena com luto e audiência
Digo que os arrastões são um fenômeno midiático porque a disseminação do medo e do ódio fica claramente por conta do telejornal. Ao governador, cabem declarações incisivas. Para o governador, se for preto, estiver descalço, sem camisa e sem documento, é pra levar pra delegacia. Nenhuma solução, apenas “mais polícia”, mesmo que – ou principalmente se – esta estiver disposta a violar artigos básicos da Constituição, como disse Thiago Bottino n’O Globo, embora eu não concorde de todo com sua análise.

Ao secretário de segurança cabe mostrar empenho. Duras críticas ao trabalho da Defensoria Pública, que nada fez além de garantir o mais primordial dos direitos ao interromper a Polícia Militar, que estava impedindo os jovens de chegarem até a praia. O prefeito diz que tudo isso é caso de Polícia. Ao “cidadão de bem”, cabe esbravejar, reclamar, disseminar seu preconceito e ódio de classe, como muito talentosamente faz há bastante tempo. Alguns deles, inclusive, convocam por facebook: levem soco inglês, tacos de baseball, vamos nos proteger!

E qual nossa parte neste todo?

Estigma, indignação
Como bem pontuou este texto, é claro que reclamar do arrastão não é mimimi de classe média. É óbvio que os donos de barraca, os trabalhadores e outros frequentadores da praia também querem um tantinho de sossego para o fim de semana. Entretanto, é importante pontuar que, embora a praia seja o espaço onde diversas classes estão presentes, o que assusta é o discurso. O texto diz que “não hesitamos em ver nos entrevistados um sintoma de ódio de classe”, mas no meu humilde ponto de vista, o discurso do ódio de classe não é exclusivo de uma classe. Ora, como bem diz Bourdieu, para que o sistema de opressões simbólicas possa existir, é preciso que o possível alvo da opressão também o reproduza. Logo, não precisa ser rico pra “odiar pobre”. O tanto de morador da zona norte que usa “favelado” como xingamento está aí pra nos mostrar como opera essa lógica.

Concordo que a galera só quer curtir a praia, os ricos e os pobres, e também acho que nem sempre os discursos convergem. Mas hoje, por exemplo, o senhor que atende no posto de gasolina que me salva em emergências cervejísticas noturnas, disse que adorou o que disse o Pezão. Legitimou linha por linha das falas que dizem “porrada neles, são vagabundos, alguém precisa se responsabilizar”. Então, não acho que seja uma mera questão de classe social que elimina o altíssimo teor de ódio contido nestes discursos.

E os camburão o que são? Negreiros a retraficar
O pós 2013 parece nos dizer que as profecias estavam corretas: o mundo acabou em 2012. Desde então, estamos vivendo numa realidade paralela. Realidade essa em que andar sem camisa, sem documento e não ter o dinheiro da passagem faz de alguém um criminoso. Viemos parar em Minority Report, mas em vez de um gigantesco aparato de previsão de crimes, temos somente alguns critérios de “prevenção”.

A Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social, segundo uma matéria do RJTV, tinha o nome de 730 crianças e adolescentes e divulgou o “perfil” deles. 86% são negros e pardos. 87% têm entre 12 e 17 anos. Em momento algum a matéria diz os critérios que definem o que é ser um “jovem em situação de vulnerabilidade” e nem o que fez com que esta secretaria registrasse o nome dessas 730 pessoas. Em outra reportagem no mesmo RJTV, o ato falho: imagine um criminoso em meio a milhares de pessoas. O criminoso não é pessoa. E, ao que parece, 730 jovens, em sua maioria negros e pardos, também não são.

Bomba-relógio prestes a estourar
Ora, veja só, pós-2013, preço das passagens, pessoas não têm dinheiro… a gente vai somando isso tudo e no final descobre que está aí a grande questão. Eles, da ordem, estão trabalhando duro pra que o direito à cidade seja cada vez mais pra poucos, como tantos outros direitos já são. Estão cada vez mais empenhados na missão de impedir os pretos periféricos de existirem, principalmente nos cartões postais da cidade olímpica.

Às vezes, limam a presença desses jovens nas praias encurtando as linhas de ônibus. Às vezes, em operações policiais na favela, eles excluem esses meninos não apenas do mapa da cidade, mas também do seu direito à vida, como fizeram com o Herinaldo Vinícius, morto na favela do Caju e com tantos outros. O mais triste é que esse número de mortes só aumenta. É como disse Adriana Facina no facebook, neste contexto, arrastão é preço baixo.

Governador, sabe por que essa molecada sai de casa sem o dinheiro da passagem? Porque ela é caríssima, uma das mais caras do mundo. Porque só pra ir e voltar da praia o sujeito tem que ter, no mínimo, 7 reais. Você, Beltrame, acha absurdo que eles saiam de casa sem dinheiro pra comer. Mas pasme: pra boa parte deles, todo dia é assim. E aí, quem mora num lugar que faz mais de 40 graus, não importa em que bairro esteja, vai querer ir à praia se refrescar. E tem todo o direito de fazer isso. E se precisar pular a catraca, vai fazer. E não vai ver problema algum nisso, porque de fato não deveria ser um problema circular pela cidade. Mais: essas pessoas que só querem vida digna e em troca recebem estigma, ficam sim cheias de indignação.

O Marcelo Burgos, neste texto excelente, destaca a falta de direitos a que estão submetidos estes jovens, hoje chamados pelo RJTV de “em situação de vulnerabilidade”. O Burgos também ressalta que é preciso romper com a lógica de que a polícia vai resolver isso. E mais, diz de forma tão bonita que é preciso fazer valer a pedagogia dos direitos. Eu não poderia concordar mais, porque é aí que mora, pra mim, a questão central.

A babilônia é cinza e neon
É, tem sido difícil viver no Rio de Janeiro. Na banca de frutas, o vendedor me diz: você tem que conferir tudo. Respondo que sempre escolho confiar. De cara fechada, ele completa: não confia em ninguém, não, minha filha! Saí triste e me lembrei que algumas horas mais cedo, ao passar na catraca do ônibus, dei boa tarde à cobradora que, ao me responder, sorriu e disse que já estava trabalhando há algumas horas, mas que este havia sido o primeiro “boa tarde” que ela recebeu.

Basicamente, o que quis dizer com tudo isso é que direito à cidade é sagrado, que a polícia não pode impedir a molecada de ir à praia, que “operação verão” nada mais é do que uma forma de legitimar a violação de direitos, que o terror midiático em cima dessa questão só vai instrumentalizar a redução da maioridade penal e o ódio de classe. O que é um arrastão pra quem mal pode circular sem ser barrado nesse grande espetáculo que se tornou a cidade olímpica?

Bem, eu escuto muito Emicida. Algumas frases desse texto estão no brilhante novo disco dele. E depois que vocês ouvirem, voltem aqui e me digam: vocês preferem esperar pra ver o ódio ou preferem lutar e ligar a pele preta ao riso contente? Nem preciso dizer qual a minha escolha, né?

Foto: Tercio Teixeira

Foto: Tercio Teixeira

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