Sobre o que a gente diz

Às vezes é uma frase que a gente diz. Uma palavra só, às vezes. É um jeito que a gente olha, um suspiro que a gente dá, um passo a frente, um jeito de encostar. Tem as palavras que a gente não diz também, mas que mostramos. Uma coisa que a gente faz pelo outro e que vale umas 300 ou 400 palavras, talvez mais. E hoje tem também os emojis. Eles falam, né? Repetem coisas já ditas, quebram um silêncio qualquer, respondem sem responder. O silêncio também diz bastante coisa. O problema é que a gente quase nunca entende o que ele fala. Aí a gente sempre se pega pensando “o que esse silêncio tá me dizendo?”. E ele continua lá, sem responder, mas falando tanto. Tem vez que ele sussurra, tem vez que ele grita, mas grita mesmo, de ensurdecer. E mesmo assim você não entende, e faz que entende pra diminuir aquela angústia.

E essa angústia dos gestos que a gente não consegue sacar, que é quase uma dor no pé, que fica ali escondidinha e você só sente quando anda. Tem os gestos que paralisam, que fazem você desistir de tudo que tinha pensado. Aí você para de vez. Ou muda o caminho todo, só por causa daquele gesto. Às vezes é um segurar nas mãos, um dedo que percorre os cabelos, um braço que te puxa, um punho que se fecha. Eles estão por toda parte, pra confundir, pra demonstrar, pra esconder. A gente se apega a eles quando não sabe mais o que fazer. E quando sabe também. Acho que no fundo a gente sempre se pauta nos gestos, que também são as coisas não ditas. É duro pra’queles que só trabalham com o dito.

Os afetos também estão aí. E eles salvam a gente um montão de vezes. Salvam da agonia, da arrogância, da dor que parece que não vai passar, da solidão. Quanta gente o afeto já não salvou de tanta treva? Às vezes a gente nem percebe e tá sendo salvo. Ou nem percebe e tá salvando. E logo eu, que nem gosto dessa coisa de salvar, porque me lembra devoção, e dessa eu tô de boa, descarto sem pena. Mas eu tô falando de salvar mesmo, de puxar pra cima quase como alguém que tá se afogando precisa ser puxado. Daquelas pequenas carícias do cotidiano em que uma mão estendida remete à terra firme que tanto faz falta naquela hora em que você não sabe nem mais onde tá.

Eu comecei falando das palavras, porque eu acho que ultimamente elas têm matado, pelo menos a mim. É, elas matam de verdade, puxam gatilhos muitas vezes. De vez em quando elas matam metaforicamente, destroem mesmo o que as pessoas têm de mais bonito. Momentaneamente ou pra sempre, a pessoa deixa de ser quem ela é (se é que isso existe, pois) pra ser quem ela nunca foi, só por ouvir algumas poucas palavras, ou por deixar de ouvir. Morrer por dentro e reviver, isso que a gente vê nos livros, nos filmes, nas novelas, parece coisa de quem vive na ficção. Dessas pessoas que andam suspirando e olhando paisagens, que caminham sendo leves feito aquelas folhas que voam na ventania. Mas eu acho que um dia todo mundo morre sem morrer, assim como tem gente que todo dia vive sem viver. Morrer é ruim. E tem ausência que mata mais que bala de carabina. Tem gente que mata sem saber. Mas às vezes é uma palavra que a gente diz. Ou que a gente deixa de dizer.

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