Pra um, pra dois

Eu tinha um amor infinito. Ele quase sempre dormia infinito e, vez ou outra, também acordava infinito. Dependia apenas do quanto eu deixava esse sentir tomar meu dia e de quanto você aparecia. Reticente, não havia sequer uma noite em que não pensava no quanto tinha de impossível nesse sentir, que era infinito. Ora, se são possíveis deixam de ser infinitas? Sei lá. Apenas coincidiu de ser impossível e infinito ao mesmo tempo, fazer o que? Nada, senão segurar os sorrisos para quando aqueles olhos apareciam, e libertá-los por onde havia uma leveza quase triste que ganhava o afago nos lábios se esticando. As bochechas coradas e o aceno tímido. Duas ou três palavras trocadas. E lá estava eu pensando: que amor infinito.

Às vezes aquilo transbordava. E aí eu falava mais que duas ou três palavras. Você respondia, cordial e, vez ou outra, tinha um sorriso. Para mim, às vezes, era mais que suficiente. Não me faltava nada, em suma. A premissa do impossível trazia certa lucidez. Esse pressuposto, então, me deixava tranquila, tranquila. Mas era um amor infinito. Tinha dia em que eu deixava transbordar mais, só pra me livrar daquilo. Não que fosse um peso, nem de longe, mas é quase um pecado guardar amor pra si. Se bem que amor no mundo tem de sobra, falta só fazer dele verbo. Nunca é demais, é fato, então para que guardar?

Também teve um dia em que eu te vi chorar. Não sei se imaginei ou se sonhei. Não sei se aconteceu de verdade. Mas eu vi. Era bonito. Quem disse que chorar é feio? Principalmente você. Você chorava bonito naquele dia. Eu sabia o motivo, acho, e tentei ser uma distração. Eu não me dava tanta importância. Na verdade eu de fato não tinha nenhuma. Mas era uma cena bonita. E eu cheguei a encostar em você nesse dia. Coloquei minhas mãos no seu ombro esquerdo e disse que estaria ali se você quisesse. E você quis. Então fiquei.

Errei. Esperei tanto de mim mesma. Assumi que aguentaria e me esqueci, por vezes, que amor não é sobre isso. E comecei a achar que, se havia amor, que fosse de dois. Amor de um eu já tive vários, muitos mesmo. Não quero mais. Então decidi sem volta que não estaria mais ali pra isso. Só estaria se fosse pra dois. Então fui.

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