Ao alcance

A azia chegara logo no primeiro gole de café. Estava quente, queimou a língua, seguiu fissurada com os dedos no teclado, tudo isso em um ritmo quase sufocante. Uma rotina impecável de sonhos e o duro despertar da realidade árdua que assola as mentes. Levantava, diariamente, pensando em como queria ver o dia terminar. Aos fins de semana, pensava em dormir mais que qualquer outra coisa. Mas a obrigação da felicidade a chamava, a juventude não pode viver num casulo. Desabrochava a cada manhã um desejo insano também pela transformação de si com o mundo. Sonhava como se passasse mais tempo dormindo do que de fato conseguia.

Sentia-se, no entanto, com o coração vazio, de pedra, de gelo, oco. Oco como móveis de má qualidade. Assim era o sentimento que a acompanhava nos dias comuns. Inspirava-se em Marighella, Leminski, Pagu, pornografia barata e funks considerados sujos. Bebia, então, e dançava como se pudesse controlar seus sentidos.

Limpava as sombras como se fossem sujeira. Passava o pano incansavelmente, sem sucesso. Não as queria por perto, o inevitável traz agonia, mas não há remédio senão esperar que a luz se vá. Sem luz, não há sombra.

Um dia, acordou e não havia luz. Abria e fechava os olhos em busca de frestas que ajudassem a enxergar ao redor. Sufocou-se então em lembranças sombrias. Não lembrara a voz, mas sabia como era. Não lembrava o cheiro, mas bastava sentir outra vez pra reativar o que estava oculto. Não lembrava o gosto, mas o sabia.

A utopia é o fio que prende um balão, desses de festa. O ar, o céu, são os sonhos, pra onde ele parte sem delongas. As mãos são a realidade, o plano concreto. O balão pode seduzir a soltar tudo ao céu, mas o fio é a vontade. É o que nos prende entre a ficção bela do horizonte e a realidade concreta, das coisas de fato. Ao soltar o fio, a utopia se vai, a beleza ao alcance termina assim que o balão se ausenta dos olhos. Mas segurando firme, ali ele fica. Entre tudo que se pode alcançar, a beleza, a justiça, a liberdade verdadeira; e o que já temos, está esse fio.

Pensava diariamente em fugir, mas se prendia e segurava firme com os dedos o que restava. Segurava, então, como se fosse sua última chance. Não quer mais só o fio. Quer o horizonte inteiro, para onde se caminha e nunca se chega. Não pensa em deixar de caminhar, mas quer fazê-lo ao menos à luz. Precisa do chão, mas também não só dele.

Poucos a alcançam. Ora, se alguém a alcança, por que sai? Ficar parece inexplicavelmente impossível. Ninguém nunca fica.

Tragam-lhe, então, o arco-íris mais próximo.

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