Jeans, cigarro e um perfume doce

Cheguei à festa e a sensação era estranha. Todo mundo me queria muito bem, me cumprimentava com um carinho ímpar. Quase como se abraçam mãe e filho depois de anos sem se ver. Eu estava acostumada, na infância, a ser sempre criticada, detestada mesmo. Não tinha tantos amigos, era a chata da turma, contestadora demais, reclamona, briguenta. Aquele ambiente, aquelas pessoas, demonstravam que eu era outra. Eram cerca de 20 pessoas conhecidas, além das centenas de desconhecidos. Dois dos mais queridos vieram logo me abraçar, os dois juntos. Outros dois, com os quais tinha menos contato, vieram correndo também. Um tinha uma latinha de bohemia na mão direita, o outro, um baseado grande e gordo. Era forte e era muito bom.

Mas meus olhos seguiam procurando por ele, embora soubesse que ele não estaria ali. Mas estava. Surpreendentemente estava. Era uma mistura de epifanias. O cheiro de jeans, cigarro e perfume masculino doce se fixaram ali, pra nunca mais. E por alguns segundos, todo aquele amor transbordando na minha direção, virou cinzas. E aquelas mãos vieram até mim. Sem ter muito como reagir, segui os passos dele. Olhei ao redor pra tentar entender o que havia. Não era nada. A conversa foi tensa da minha parte, mas só da minha. Da parte dele era só um desabafo. Dizia que estava feliz pela viagem, triste pela Joana. Passaram-se meses e ele ainda sentia aquela dorzinha, como se algo agredisse o peito apertado.

Fui dançar. Ele também. Já muito bêbada e sem qualquer senso poético, algumas lembranças me tomaram a mente. Como o dia em que andávamos por Niteroi conversando sobre sotaques. E o dia em que ele enroscou meus cabelos pela primeira vez e me beijou noite adentro.

Eu dançava como se não houvesse amanhã. Nunca gostei de uísque, mas naquele dia fazia sentido. Saltitando pela pista, com os olhos pequenos e o coração cheio, eu cantei e dancei. Me perdi dos amigos, esbarrei em gente bonita, mas não quis mais nada além de uma dança descompromissada e solta.

Horas depois, o cheiro de jeans, cigarro e perfume masculino doce estavam por trás de mim. Senti braços deslizando pelos meus ombros e um beijo no pescoço. Continuei dançando, mas presa àquela abraço. Eu poderia ficar ali pra sempre. De repente, fui girada a 180 graus. O cheiro de cigarro estava muito próximo. Eram seus lábios, chegando nos meus. Eu deixei. Poderia ficar ali pra sempre também. O cheiro de jeans encostava nos meus cabelos e o perfume doce estava bem no meu nariz. Era um abraço desses onde a gente se aconchega e fica.

“Você é linda”, sussurrou no meu ouvido direito enquanto segurava meu queixo com a ponta dos dedos. Sorri. “Não importa mais onde você vai, só quero ir com você”, suspirou. Fechei os olhos e entrelacei os braços em seu pescoço. Aquela camiseta vermelha ele vestiu de novo no dia seguinte, por volta de 10h, quando acordou e sorriu. O cheiro ainda era o mesmo. Eu troquei as fronhas e o cheiro continuou.

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