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No enlace das pernas nascem sorrisos sinceros. Aqueles primeiros risos tímidos que se abrem no susto dos pés gelados e que transformam-se em gargalhadas quando as coxas se entrelaçam. Perdem-se entre toques e carícias. Não se sabe mais onde começa o seu corpo ou o dele. Os joelhos se cruzam numa sintonia quase intuitiva.As panturrilhas se alisam. Os pés deslizam do joelho ao dedo mindinho. Isso tudo numa sequência delirante que termina com um abraço. E recomeça com um beijo, um carinho no queixo. Continua no aguçar dos desejos e deságua em suspiros fortes. Uma afinidade clara de sentidos, cores e sabores. Puxa forte pelos cabelos lisos, segura firme e fala baixinho. Pede pra relaxar.

No enlace das pernas nascem novos delírios. Os pensamentos passam a ser variados, mas todos terminam ali, naquele momento, naquela cama. As mais diversas formas circulam pelas paredes do quarto. Uma mistura de luz e sons observados de baixo aceleram o coração. Os movimentos fortes e, em parte, sincronizados, dão conta de fazê-la sentir-se a mais entregue das mulheres. O mover das sombras desentediando o quarto em meia luz, as portas trancadas, os suspiros.

No enlace das pernas nasce o descanso dos corpos. Ele a abraçou e pediu desculpas. Ela, sem entender, aceitou as desculpas. Decidiu não perguntar: por que motivo faria questão de compreender a fundo aqueles momentos? Depois se arrependeu. Pensou que aquele poderia ser um sinal, um SOS. Mas passou. Ela apenas aceitou as desculpas e deixou que os dedos grandes do rapaz tocassem de novo a ponta do seu nariz. Ele sorriu. Ela fechou os olhos.

No enlace das pernas nasce o acalento. Suados e afrouxados, os corpos deixaram-se levitar. Ela com as mãos na espinha dele, deslizando levemente os dedos enquanto espera uma frase qualquer. Ele só diz: obrigado, você é uma delícia. Aceita o afago e dorme tranquilo. Ela, com o queixo sobre seus ombros, se entrega também ao sono. Antes mesmo que acordasse, ele já estava de novo com os dedos em seu rosto. E disse: seu nariz, suas bochechas, suas sardas, tudo em você é perfeito; você é deliciosa. Ela só sorriu.

No enlace das pernas nasce a despedida. Ela tinha sono e ressaca. Ele tinha compromissos. Quando notou o esticar da hora, ele parecia ter pressa nas palavras, mas sossego na atitude. Esboçou um leve gemido e disse: não quero te deixar ir, mas preciso. Ela sorriu de novo, suspirou e disse: sim, chegou a hora. E foram, sem promessas, sem dívidas, sem correrias. Apenas foram. Seguindo o caminho lógico.

No enlace das pernas nasce o alento. Nascem os filmes e os poemas mais clichês. Nascem também suspiros, gemidos, gozo. Nasce o dia.

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