O vício

É como parar de fumar. No início, bem no comecinho, é uma dor física. Você procura, sente, os braços ficam dormentes, a fissura parece que só aumenta. O coração aperta, se contrai, os olhos ardem, a testa se franze, os dentes se cerram. Os dias vão passando e você para a comemorar cada minuto, hora, dia vivido. Os primeiros parecem durar séculos, você vai assinalando o calendário em vermelho como marcas de quem aguentou todo aquele tempo. Você é um vitorioso, já consegue respirar fundo e dizer não. Mas aí você sente o cheiro de café e se lembra daquele primeiro trago, o saboroso trago que pode te levar ao paraíso.

E então você passa a sofrer apenas nas recaídas. Os dias são vividos em função do empenho no esquecimento. É preciso deixar o vício de lado, construir uma nova rotina. Passaram-se 15 dias, os olhos já não ardem e o coração já não se contrai. Mas os lábios, esses sentem falta de um saboroso veneno ao qual não terá mais acesso. As pernas tremem hora ou outra, mas você percebe que é normal. Os dias ainda são riscados no calendário, mas já não são um sinal de vitória. As canetadas simbolizam o hábito adquirido. Agora você já sabe viver sem ele.

A nicotina agora te acelera, faz mal. O cheiro te enjoa, o gosto não te agrada. Você olha, mas não quer. Até o dia que sequer vai olhar. Esse dia chega sem você perceber. Tomado pela consciência do quanto aquele vício te fazia mal, você apenas se afasta. Não há fumaça, sonhos, desejo. Não á mais nada. As recaídas passam a ser sentidas como um grande vazio, que já não dura horas, mas apenas minutos resolvidos com pequenas distrações como olhar a janela.

Passam-se, então, mais e mais horas, dias, semanas. Até que chega o primeiro mês. O terceiro, o quarto. Passa o gosto, o prazer, o desejo. Qualquer coisa parece ser mais saborosa. E você sequer se lembra que um dia fumou.

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