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Adiar pensamentos pode ser virtude. Pode ser solução momentânea, até passar. Pode correr com o tempo, acelerar o desfecho. Pode acalentar um coração covarde. Pode significar cuidado, parcimônia, até sensatez. Pode falsear o que se sente. Pode estancar o que se quer. Pode acabar com o que não se quer.

Esse sentimento que não é, mas pode ser e não será. Fora adiado pelo que bruscamente urge numa mente aflita. A secura na garganta começa a cansar. O amargor da não-resposta afasta, agride, abate. O adiar de pensamentos é o eterno devir de um presságio ruim. Dele o que pode surgir é irreversível, irrevogável. É impossível retomar o que ficou.

Apenas, então, faça correr. Não deixe pra depois, deixe pra lá. De vez.

Sente-se pouco mulher. A mais feminista delas se sentiria. A impressão de insuficiência deixa marcas na pele, nos olhos. E sexa de novo os lábios. E faz surgir o que é distante, de novo, e apenas na condição de lembrança. Lembrança boa até ser só lembrança. Até ser só vulto. Até não ser nada.

Deixe, então, pra lá. Ignore o que foi e, sobretudo, o que poderia ser. O tempo desrespeita os sonhos, sopra seu veneno nas memórias, apaga os entrelaços, desfaz o que se fez, impossibilita o que não se fez.

E nesse engodo faz-se presente toda sorte de neuroses.

Sobram, então, lençóis revirados, mordidas na nuca, pedidos de mais. Sobram as mãos nos ombros ao caminhar, as brincadeiras em abraços.

Até não sobrar mais nada.

Até o fim.

Até.

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