Quereres

Ela quer um homem que te diga o que pensa. Quer que ele diga “eu te amo”, mesmo sendo mentira. E que ela saiba que é mentira. E que quando for verdade, ela jogue na cara dele: “você só dizia que amava pra me comer”. E que ele sorria com olhos safados sem precisar dizer que é verdade, e então coloque os braços dela nos ombros dele, as mãos dele no seu quadril, um pouco mais abaixo, e diga “vem dançar comigo”, encerrando o sorriso. O sorriso dá lugar a testas franzidas de quem leva a sério uma coreografia bem feita na pista.

Ela quer um cara que force a barra, que faça chantagem pra pedir favor. Que seduza cada poro de sua pele só tocando seus dedos. Ela quer que ele sofra quando ela disser que vai sair tarde do trabalho. Quer que ele não demore pra se arrumar e que reclame que ela demora, mesmo ela não demorando. E que isso seja motivo de piada entre os amigos, pra que depois eles riam disso despreocupadamente.

Ela quer alguém que ria das suas piadas maldosas, sem nenhuma culpa cristã, e que complemente as piadas com ainda mais maldade. E que ela ria disso e depois diga que ele foi longe demais. E ria de novo.

Ela quer alguém que ache que está sempre certo em tudo que faz e que, quando se der conta dessa burrada, sorria e peça desculpas com a naturalidade em que o vento toca as folhas do ipê amarelo. Quer alguém que a coloque como presente, de olho no futuro e lembrando com afeto do passado. E que quando o passado chegar, saiba lidar com ele sem apontar pro rumo errado.

Ela continua achando que todos são responsáveis pelas pessoas e seus sentimento. Ela quer alguém que saiba que os sentimentos existem e que quem conhece a dor de alguém, sabe o que fazer pra machucar e pra não machucar. Talvez seja exigir demais em dias que se ri quando se ouve falar de amor.

Ela quer um cara fora do padrão físico estabelecido. Ela não quer um galã de novela. Quer um cara com sorriso encantador, olhos valentes, ombros largos e uma leve barriguinha que mostre o quanto ele é normal.

Talvez ela queira um amigo também. Um companheiro pra fazer supermercado, caminhar na lagoa domingo e almoçar na Cobal. Que não ache chato tomar um yogoberry no fim do dia e depois voltar pra casa pra ver o que sobra da programação trash da TV dominical.

Talvez ela queira alguém que não existe. Talvez exista, longe dela e ela nunca encontre. Talvez acabe se adaptando. Talvez não saiba onde ele está e nem procure. Talvez ela queira vários tipos diferentes desse numa mesma noite e depois sofra de ressaca moral por sequer saber os nomes deles. Talvez ela queira adiar esse encontro. Talvez ela não queira que ele aconteça. Talvez ela não queira ninguém.

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