Um de nós

Entendo que a história de qualquer pessoa é marcada por contradições. Das menores às maiores. Das mais necessárias às mais supérfluas. Entendo também que errar, tropeçar e tentar corrigir, ou nem tentar, se redimir e tudo que se relaciona a isso são características nossas. Cada um lida com isso da maneira como pode e consegue.

Mesmo após piadas, brincadeiras e emoções, falo tudo isso pra dizer que quero me manifestar, dentro de toda minha pequenez, sobre a morte de Oscar Niemeyer. Quem sou eu para julgar um homem que, aos 104 anos, gozava de tantos carinhos ao redor do mundo? Quem sou eu para julgar um comunista veterano do partidão, que enquanto eu nem pensava em nascer, já travava lutas das mais árduas por esse país?

Pois é. Eu sou Mariana. Uma caiçara socialista e agnóstica, que percebe que devemos sim apontar os erros que encontramos, mesmo que amanhã os dedos estejam voltados para nós. A coerência e a contradição são parceiros de caminhada. Às vezes nos deparamos com um, outras vezes com outro. Niemeyer tinha minha admiração, embora isso não fizesse qualquer diferença na vida dele. Foi um cara que me mostrou que o talento para a arte e para o pragmatismo podem se entrelaçar das maneiras mais belas possíveis. Me mostrou também que Brasília tem o céu mais lindo de todos e que acompanhado por aquela arquitetura estupenda faz qualquer um esquecer o chorume que circula por lá. Niemeyer me fez ver muitas coisas desde pequena. E foi na terra de suas obras que fui morar. Niterói me conquistou pelo MAC. Como não amar aquele lugar e os arredores? Sou grata ao bom velhinho pelos momentos doces que passei ali. Minhas lágrimas de tristeza, alegria, dor, amor, meus sentidos, meus olhos, meu sentimento está ali.

E digo tudo isso porque fiquei sim muito decepcionada com as últimas atitudes políticas de Niemeyer. Apoiar Zito em Caxias foi péssimo. O tucano que conseguiu piorar a educação, a saúde e todas as políticas públicas caxienses e que fez daquele povo gato e sapato contou com o apoio de Niemeyer por mais de uma vez. E o pior: não sobrou sequer tempo para arrependimento. Depois disso, veio o apoio a Eduardo Paes. Amigo das milícias, pai das negociatas, rei das alianças mais espúrias da política, playboyzinho escroto a favor do assassinato sem dó de pretos e pobres favelados, o cara que remove famílias inteiras sem nem titubear, o primo rico da classe média carioca, o tiozão dos contentes e o alvo do ódio de nós, descontentes. Niemeyer mandou mal.

Mas me impressiona a forma como a contradição permeia a vida do velho comuna. Mesmo após tantos tropeços, recebeu como homenagem uma belíssima coroa de flores do comandante Fidel. Recebeu também homenagens de Raul, atual líder cubano. Me admiro. Me entrego à admiração novamente.

Me admira também, e me deixa indignada, a capacidade das pessoas em escrotizarem as outras. Niemeyer, como TODO MUNDO sabe, foi ateu durante toda sua vida. Não professava nenhuma fé, não acreditava em deus, não rezava e não frequentava templos. Era ateu e ponto. Soube que hoje, em última homenagem ao cara, fizeram uma missa. Nem preciso dizer a revolta que isso me causa, né?

Niemeyer foi um artista, um comunista, um sonhador, utopista.

Niemeyer não foi nada além de um de nós.

Foto: Cecilia Lorenzo

Foto: Cecilia Lorenzo

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