Névoa

E dessa vez o frio era inesperado. Era no contexto, no ar. A ligação estava estranha, mas seguia forte. Ela sem muitas reações, tentava se manter sempre olhando o horizonte. Ele, já acostumado com situações desse tipo, olhava com os mesmos olhos de sempre. Os lindos olhos, o corpo, os braços. Ela se lembrava de cada detalhe. Das sensações da pele, dos pés se tocando, dos sons, dos beijos. Pensava no que aquilo significava pra sociedade, e que pra ela era só uma etapa. Feminista, achava normal que fosse assim. Ele se sentia especial. Sabia do feminismo da garota, mas a via com os olhos de sempre. Enxergava ali a menina risonha que conhecera através de um bobo engano virtual.

Ela pensava no suor, nos lençóis e nas roupas espalhadas pelo chão. Ele conseguia sentir seu cheiro, o mesmo de antes. Não se sabe o que pensava o moço, os olhos misteriosos ainda guardavam a mesma expressão. Mas a mania de sempre imperava: esconder o jogo. Um cara valente e que preferia demonstrar apenas quando necessário as sensações guardadas. Olhava pra ela e sorria normalmente, sem qualquer compromisso com o devir. Ela seguia desconfiada e em brasas. Coração e mente.

Ali estavam os dois, diante de uma paisagem estranha. Os sons de folhas nos pés significavam pra ela um momento ousado. Ele olhava como se fosse parte do dia, da vida. Ela não quis sentar naquele lugar, parecia úmido e sujo. Ele sentou, e puxou a moça como numa brincadeira de colégio. Ela riu e se entregou de novo às sensações que aquela pele lhe trazia. Era o mesmo cheiro. A mesma pele. A mesma temperatura. O frio se foi e deu lugar a um desejo incontrolável de carícias. Daquelas que só fazem os mais íntimos. Ela não pensava em intimidade de casal, mas na intimidade que o sentimento dava. Era difícil explicar a sensação. Mas era bom. Algo como um mistério que não se quer desvendar, apenas fechar os olhos e sentir. Caminhando por ele, percebeu que as conversas poderiam ficar pra depois.

E lá se foram. Mentiu pra mãe, levantou, abraçou e disse pela primeira vez o que queria. Atitude que tomaria para a vida toda. Ansiosa, engoliu o rapaz com os olhos. Ele gostou. A noite trouxe culpa, aconchego e sono. E eles não paravam. O suor tomava conta dos dois. Cada vez mais ela sentia que era o certo. Não poderia estar em melhor lugar. Não pedia carinho, apenas deleite, distração, gozo. Deitou, sonhou, sentiu. Sorriu e pensou que poderia acordar toda a vizinhança. Mas não se importava. Queria apenas sentir. Sabia que por ora era o encanto ao qual tinha direito. Experimentou, deixou, pediu. E se permitiu forçar o desejo alheio até o fim. Não conhecia prazer tamanho. E tinha que ser com ele. O dia chega e ele, que parecia satisfeito, pediu mais. Ela não negava nada. Nuca, sentidos, impressões digitais, ombros e braços. Ela via. A água fazia um som relaxante e trazia o despertar do fim.

O sexo era o que havia de melhor entre os dois. As brincadeiras infantis e as eternas grosserias dele com ela. Ele, sempre achando que ela tem algo a aprender, não consegue ver que sentimento também é pra vida. Ela se achando dona de tudo, engolindo o mundo se faz presente como furacão com coração de brisa. Mãos presas ao alto pela força do sentido. Não se olham mais, só se sentem. A entrega é tanta que os olhos se cruzam mesmo sem um fio de luz sequer. Sabe-se que está ali, e basta. Os sons concentram o calor na pele. Calor que se vai quando o primeiro resolve pegar no sono.

Se arrependeu, chorou, lembrou. E se desarrependeu. Viu que o momento era aquele. Pensou e fantasiou por noites e noites. Usa para seu prazer.

Ligação estranha. Não é amor. Não é amizade. Não é paixão. Pede a ele uma definição. Pessoa errada, resposta não há. Deixa de lado, então, a necessidade de nomes. Tudo que é de igual prazer não tem nome. Tem saudade.

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