Sobrevoar

Sobrevoando tudo parece belo. As ruas, as estradas, os caminhos. As pequenas e grandes casas, as plantações, os bairros delineados por grandes avenidas. Prédios, piscinas, pistas de pouso. Terraços de prédios marcados para receberem helicópteros, um atrás do outro. Árvores em pontos estratégicos e espaçadas como numa maquete. É possível ver movimentos, carros, fumaça, poluição. E é possível ver a desigualdade. Nas periferias sobrevoadas, as piscinas e grandes plantações dão lugar a um amontoado de pequenas casas. Onde consegue-se ver a babilônia em chamas pelo progresso, é também visível as chamas reais do desespero.

Essa poderia ser a cena de um filme sobre o futuro da humanidade. Poderia ser uma imagem insinuando que o aquecimento global vai nos levar ao fim. Mas isso é São Paulo, hoje, dia 16 de novembro de 2012, vista de cima.

De onde enxergamos demarcações de grandes propriedades de terra ao longo do estado, também enxergamos barracos de poucos metros quadrados, onde cabe apenas o necessário. Do alto, uma favela devastada. É aí que nos lembramos das áreas da cidade de São Paulo que acabaram de sofrer com misteriosos incêndios. Ninguém me disse. Eu vi. De cima não vi o sofrimento, o pânico, o desespero. Mas vi espaços onde antes crianças brincavam e aproveitavam a inocência de seus dias transformados em cinzas. Um grande buraco escuro formou-se no local. A imagem parece de uma catástrofe natural. Como se um pequeno meteoro decidisse atingir exatamente aquela área da cidade. E é quase isso.

Um meteoro chamado especulação imobiliária. Mas que também pode ser chamado de ganância, ódio, racismo, preconceito, criminalização da pobreza, e o que mais vier à mente dos que refletem sobre o mundo ao seu redor. São tantos os nomes para a barbárie. São tantos os nomes para o sofrimento dessas pessoas. São tantos os nomes dos mortos, desabrigados, machucados e traumatizados. São tantos os nomes. São tantos.

E como chamamos a solução viável? Que denominação podemos criar para um horizonte possível? Por onde caminhamos senão pelo obscuro caminho da utopia? Para onde ela nos leva? Que rumos os indignados pretendem? Quando poderemos vislumbrar um cenário chamado igualdade? Quanto esperaremos? Esperar? Isso não sabemos. Fazemos à hora, corremos, derrubamos o que impede. Queremos chegar. Mas uma coisa é certa: o caminhar é o que importa. E as chamas a serem acesas serão as da vida. Ela como valor único e absoluto. O amor.

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