Visceral

Ela tentou esclarecer a decisão recém-tomada. Mas não era justificável. Era maior que dela, maior que seu, maior que tudo, maior que a vida. Era um mundo. Mas não se sentia mais parte daquilo. Não se sentia mais representada nas linhas daquelas páginas cheirando a tinta fresca. Não se sentia mais parte do que via na tela do computador ao longo do dia enquanto conversava sobre trivialidades e sobre trabalho. Achava pobre, vazio, fraco, sem luz. Doeu na pele o desrespeito. Mas já passara por isso outras vezes. Calos se formaram e darão lugar a cicatrizes que jamais serão apagadas.

A decisão é apenas dela e de mais ninguém. Deixou claro que perdeu o encanto, que sentiu o quão opaco se tornara tudo aquilo. Amava como a sua própria vida. Sentia como se saísse de dentro dela uma criança de 5 anos. Totalmente desforme, desconfigurada, não-artística, insensível, sem alma, sem cor, sem miolo, sem pétala. E mesmo diante de tudo isso, deixar aquela criança doía. Deixá-lo virou uma ferida irreparável em sua história, em seu caminho, no coração e, se é que existe e se é que ela tem uma, na alma. Amou aquela criança por ter lhe proporcionado os grandes e melhores momentos da vida. Choros de alegria, raiva, tristeza e, principalmente, de orgulho. Nela deixou sua marca, mas a criança, que um dia fora bela e repleta de sentido, agora era deformada e sem razão. A criança não deixou qualquer marca nela.

Sentiu-se apenas marcada pelos amigos que fez. Embora brigasse com alguns com firmeza, e o que construíra com aquelas pessoas durante aquele tempo não tinha nome, tinha energia. Era uma forma de amor.

Foram quase 5 anos de entrega, de vísceras abertas pra esse amor chamado jornalismo. Mas acabou.

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