O elo

Nenhum anel servia a ela. Não é que não gostasse. Apenas a anatomia não favorecia seu gosto por manter os dedos vestidos. E se perguntava como faria quando o espaço tivesse de ser ocupado pelo elo da vida, o que vale a pena. Que fazer? Apenas aguardar, estava longe esse dia e, embora a anatomia não colaborasse, havia tempo para decidir.

Não tinha medo das pequenas coisas. Apenas das grandes. Não tinha medo de barata, mas cisnes travam seu sono. Detestava máscaras sociais, mas sabia lidar com elas. Só não lidava com máscaras de Veneza, principalmente as narigudas. Não tinha medo de se expressar, mas tinha medo da expressão do outro. Até que chegou o dia.

A anatomia dos dedos não mais importava. O elo anatomico real, do formato dos braços, dos laços, esse sim, quando no fim, tirou seu chão, seu céu. O ar rarefeito passou a tomar conta dos pulmões cansados de gritar por força. Os olhos, que outrora choravam menos, brilhavam muito e sorriam todos os dias, deram espaço para a agonia notada por quem se aproximasse.

O sofrimento é constante e, mesmo que passe, conviverá com o amor contido. E como conter um transbordamento sem fim? Como se o caldeirão fervesse e a tentativa de conter com as mãos sobre a fumaça fosse queimando cada parte de si. Como tentar colocar um rio em um cálice. Como tentar empurrar uma espada com os dedos.

Ah, os dedos. Esses que entrelaçaram tantos momentos. Agora já não sabem mais por onde passam. Só servem para escrever. O anel já não importa mais, fora substituído por uma tatuagem no anelar esquerdo. E por outra nas vísceras, no espectro, na lágrima, no chão.

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