A alegria necessária para a luta diária

Tem gente que podemos passar meses sem conversar, mas a sintonia continua a mesma. Conversando com uma amiga, ela me disse que passou, recentemente, pelos mesmos transtornos de ansiedade pelos quais passei. Remédios + serenidade para levar a vida estão ajudando, mas o consenso instantâneo entre as duas foi: olha o que o capitalismo faz com a gente. Sim, pode parecer besteira, mas uma estratégia genial de quem controla o sistema econômico e pretende manter seus privilégios é nos deixar doentes. Doentes psicologicamente, estressados, deprimidos. Quem é que vai ter ânimo pra fazer revolução quando tem tantos surtos psicológicos pra tratar. Desde a mais leve depressão à síndrome do pânico – cada vez mais comuns entre jovens e até adolescentes – a saúde mental tornou-se tema central para a esquerda.

Os lutadores, militantes e pessoas que querem e sonham com um mundo melhor precisam estar atentos e fortes ao que esse sistema nos causa. A vontade de não fazer nada diante das dificuldades diárias pode virar o maior problema já visto na história das lutas sociais. Mesmo querendo transformar o mundo, um deprimido não tem forças para se erguer contra o que o oprime. E é por isso que a saúde mental pública, de qualidade e para todos deve ser uma bandeira pensada pela esquerda da forma mais ampla possível. Não podemos perder nossos valorosos guerreiros da contra-hegemonia para a tristeza profunda.

Sabemos que a primeira resistência, hoje em dia, é a interna. Cada indivíduo deve pensar seu papel no mundo, sem esquecer que precisa dividir isso com o coletivo e partilhar ideias, conhecimentos e o que mais for necessário para as transformações que queremos. Mas não para por aí. Se deixarmos, o mundo do trabalho, a opressão diária inerente ao sistema nos levam tudo. Levam nosso equilíbrio e tudo mais que nos resta: nossa mente livre, nossos pensamentos, nossos sonhos. É só o que temos nas mãos e no coração, não podem nos levar! Se o mundo se deprime, adoece mentalmente, eles vencem. Não deixemos!

Falei tudo isso para chegar a um ponto que acho essencial: a alegria. Esse elemento é tão importante quanto todos os outros no processo de transformações da sociedade. Os sorrisos, as festas, as danças… tudo isso pode ajudar a trazer de volta pessoas que desistiram ou se afastaram da luta. Além disso, mantém integrado aqueles não se afastaram, cria laços de amizade, amor e fruição. Partilhar momentos de extravasar deve fazer parte do cotidiano revolucionário. E isso não é menos importante do que qualquer etapa do processo de formação das pessoas.

Imaginem um mundo em que ninguém tem vontade de fazer nada. Onde as forças para lutar estão canalizadas e entregues ao dia a dia cada vez mais “sal de fruta” – que consome quase que instantaneamente cada átomo da vontade de mobilização. Precisamos levantar a bandeira da alegria! Se não podemos ser felizes com esse sistema, que tenhamos alegria para transformá-lo. A inspiração torna-se cada vez mais peça-chave para nossa utopia concreta.

Afinal, como disse sabiamente Emma Goldman: “Se não posso dançar, não é revolução”.

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